BLOG DO LARANJEIRA EDIÇÃO: 12 DE DEZEMBRO DE 2009 
A história que não quer apagar Sempre no final do ano, lembro da figura de uma mulher esguia, baixa e magra, que eu vi pela primeira vez em Salvador, há pouco mais de 37 anos, ao sair da praia da Boa Viagem, no alvorecer. Ela batia porta a porta e ao acordar o morador pedia mantimentos, que acomodava na Kombi que a acompanhava.
Na minha falta de experiência, não podia entender como alguém sacrificava horas de sono para ao nascer do sol, de casa em casa, solicitar esmola para outras pessoas. Ao narrar o acontecimento à minha mãe soube de quem se tratava: da Irmã Dulce, uma freira que pedia doações para bêbados, idosos abandonados e moradores de rua que ela recolhia das calçadas e dava-lhes comida, remédios e um lugar para permanecer com assistência médica. Deste dia em diante ela fincou pé em minha memória e seu olhar cruzou com o meu no final do ano seguinte. No mês de dezembro, repórter do JORNAL DA BAHIA, fui destacado, pela chefia de reportagem, para checar a veracidade da notícia, segundo a qual, faltava-lhe dinheiro para o pagamento do 13º. salário dos servidores do hospital, que ela insistia em construir para dar abrigo a um número cada vez maior de indivíduos abandonados pela sociedade. E os servidores não eram poucos, muitos, aliás! A notícia saiu no jornal e, dias depois, como uma mágica, o dinheiro lhe apareceu por ordem do banqueiro Amador Aguiar. Confesso que as atribulações de uma pequenina mulher levaram-me a refletir sobre a vida e fazer indagações para as quais não encontrava respostas. A leitura persistente, à qual me habituei, revelou-me que a vida é assim mesmo: nós vivemos uns para os outros, não obstante nem sempre o que oferecemos recebemos em troca: às vezes tiram-nos mais do que podemos dar, nos roubam e nos humilham, mas aprendi, também, que os invejosos e gananciosos são pessoas cheias de temores, de desejos e angústias, que vivem atormentados com a possibilidade de que estranhos façam a eles o que fizeram aos outros. Nessa época de festas, costumamos nos embriagar pela velocidade, pelo celular com vídeo, pelo culto do corpo, pelo televisor de 30 ou 40 polegadas, pela casa na praia, pela chácara ou fazenda, por mais um imóvel na cidade, sabe Deus para quê! E nessa embriaguez somos dominados pelo vício de consumir, nem que tenhamos de corromper e nos tornar corrompidos ou ingerir drogas para ter coragem de fazer o que achamos necessário à ambição. Aos 62 anos, ainda não sei o que é a felicidade que todos ou quase todos buscam como um tesouro e por ela sacrificam a saúde, a reputação, a liberdade, pois a associam à bens materiais: carro último tipo, casa na praia, conta corrente gorda, cartões de crédito em abundância, corpo escultural... Por ignorá-la, e não saber ao menos o que representa, sou despossuído de ambição. Valorizo a camaradagem, o esforço, o objetivo alcançado, as pessoas que executam uma arte, a leitura, a um bom filme, uma criação artística, o enredo de uma história ou de uma música Valorizo modelos de valores humanos e espirituais, símbolos da realidade dos deserdados que vivem esmagados pela miséria. Exemplo deste modelo considero a Irmã Dulce que, não dando bolas para aquele tipo de felicidade, pelo qual a maioria é capaz de roubar, matar e se drogar, pregou justiça sem a voz. Usou apenas o gesto e, com ele, à base de esmolas, criou um dos maiores hospitais brasileiros para os pobres. A sua pequenina figura me apareceu no amanhecer de um dia de final de ano, quando eu pensava que a vida se resumia unicamente no gozo dos bens materiais e não conseguia entender como alguém sacrificava os momentos de prazer para pedir esmola para os bêbados e doentes, por cuja situação ela não podia acumular sentimentos de culpa. Essa sua imagem permanece em minha memória, como uma história que não quer apagar, a insinuar o enredo de uma crônica de que o prazer da vida não está em vivê-la, mas em achar um motivo para viver. Carlos Laranjeira é jornalista, fundador e diretor do jornal POLÍTIKA DO ABC. Comentários para Politika@uol.com.br
Escrito por Laranjeira às 07h51
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